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ago 25, 2021
Mercado de acesso
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Estamos vivendo em 2021 uma onda ascendente de empresas abrindo capital na bolsa de valores. Neste ano já foram realizados 30 IPOs, número superior aos 25 de 2020, segundo a CVM. Este cenário, que já é bastante positivo, poderia ser ainda melhor se tivéssemos um mercado de acesso no Brasil.

Chamamos de mercado de acesso um ambiente para listagem e negociação de participações de empresas que já cresceram o suficiente para não serem consideradas mais startups, porém, ainda não têm musculatura para abrir capital em bolsas de valores tradicionais.

Trata-se de um mercado organizado (e regulado), no qual a empresa já é considerada pública e necessariamente precisa implementar boas práticas de governança e transparência, falando a “linguagem do mercado”, mas não precisa cumprir as mesmas exigências das grandes companhias abertas. Já existem iniciativas relevantes neste segmento pelo mundo, como a AIM no Reino Unido, da London Stock Exchange, e a TSX Ventures do Canadá, da TSX Exchange.

IPO no Brasil é proibitivo para empresas emergentes

Um estudo realizado pela Deloitte[1] estimou que o custo médio para uma empresa abrir capital no Brasil entre 2004 e 2020 chegou a 3,9% do total captado na operação, e sendo uma listagem no Novo Mercado esse percentual chega a 5%.

Esses percentuais parecem baixos, mas não são, considerando que existem custos mínimos e estamos falando de captações na casa de bilhão, em que todo o investimento para estruturar e preparar a empresa para se tornar pública acaba sendo diluído em função do tamanho das ofertas. Para ilustrar isso, nos 30 IPOs mencionados foram captados R$ 66,2 bilhões, com uma média de R$ 2,2 bilhões por emissão.

Para as empresas emergentes, que buscam cheques menores, os custos e o nível de organização necessários para que ela passe a negociar na B3, preenchendo os requisitos do formulário de referência (CVM 480) e atendendo a todos os critérios e práticas exigidos pelo regulador, tornam a opção de abrir capital proibitiva porque a conta não fecha.

Cenário é favorável ao mercado de acesso no Brasil

No Brasil, que viu o lançamento em 2008 do Bovespa Mais, iniciativa da B3 que não ganhou tração, as discussões sobre desenvolver o mercado de acesso voltaram a esquentar. Lá atrás a conjuntura era diferente. Foi o ano da crise do subprime e os investidores no geral eram menos propensos a risco. Basta dizer que eram menos de 600 mil CPFs registrados na bolsa.

Hoje o cenário mudou. O mercado acionário esquentou, são mais de 4 milhões de CPFs cadastrados na B3, e os investidores, cada vez mais interessados pelo tema, estão ávidos por novas alternativas. Em paralelo, a CVM vem dialogando com os agentes de mercado e avançando com uma agenda de reformas regulatórias.

Thomas Edison

Um exemplo disso é o sandbox, ambiente experimental em que os participantes admitidos receberão da CVM autorizações temporárias e condicionadas para desenvolver inovações em atividades regulamentadas no mercado de capitais. Das 33 propostas inscritas para o primeiro ciclo,19 propuseram projetos que envolviam a constituição e administração de mercados organizados.

Outro fator que contribui para o desenvolvimento do mercado de acesso é o avanço tecnológico. Soluções utilizando blockchain e o avanço de integrações de serviços financeiros, por exemplo, permitem que o custo da governança se torne mais competitivo, simplificando procedimentos e obrigações e ao mesmo tempo protegendo os interesses dos investidores.

Potencial do mercado de acesso

De acordo com o IBGE, temos mais de 22 mil scale-ups no Brasil, ou seja, empresas que cresceram acima de 20% ao ano nos últimos 3 anos. Quantas dessas empresas não poderiam acelerar ainda mais seu crescimento se fossem à mercado? Quantas dessas empresas não seriam excelentes oportunidades de investimento?

O desafio para tornar isso possível é estruturar um mercado organizado para negociação de participações de empresas emergentes, que concilie a simplificação do processo de listagem com um padrão de governança minimamente elevado para trazer segurança aos stakeholders.

Ao permitir que mais negócios possam se financiar por meio do mercado de capitais, podemos não só viabilizar a ascensão de novas grandes empresas no Brasil, como gerar valor para acionistas e trabalhadores, contribuindo para o crescimento econômico do país.

As perspectivas não poderiam ser melhores.

Referências

[1] DELOITTE. Preparação e custos para abertura de capital no Brasil. 2020. Disponível em https://www2.deloitte.com/br/pt/pages/audit/articles/custos-para-abertura-de-capital.html Acessado em 10 de agosto de 2021

Publicado originalmente na Exame Invest

Por Patrícia Stille

CEO da beegin, sócia cofundadora e membro do conselho do Grupo Solum. Ex sócia da XP, onde foi head da área de Fundos de Fundos (FoF) e co-responsável pela estruturação da plataforma de fundos e área de alocação

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