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jul 20, 2021
O mercado de capitais amadureceu e o investidor cresceu junto
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Se um investidor típico do mercado de capitais brasileiro no final dos anos 1990 pudesse dar um salto no tempo e chegar aos nossos dias ficaria no mínimo espantado. Acostumado a obter uma rentabilidade segura na renda fixa, a partir dos juros altos brasileiros, ele não imaginaria a quantidade de escolhas que teria hoje para alocar o seu patrimônio.

Esta transformação completa de cenário mostra como o mercado brasileiro evoluiu de forma impressionante nos últimos vinte anos. Neste processo, o mindset do investidor também amadureceu, acompanhando as tendências e explorando novas possibilidades. Quem viveu nos bastidores deste mercado entende a importância deste movimento, e também do que está por vir.

Para compreender este processo, podemos dividi-lo em três grandes ondas de evolução do mercado, cada uma sofisticando os instrumentos das etapas anteriores.

Primeira onda: da poupança aos títulos

No início deste século, houve um primeiro movimento para trazer os investidores ao mercado de capitais. O caminho natural foram os bancos múltiplos, que reuniam muitas contas bancárias e concentravam as opções de investimento. A criação de categorias intermediárias de gerentes entre o private banking e o varejo tradicional deu acesso a novos produtos para vários clientes de renda média.

Mais para a frente foram acontecendo algumas mudanças institucionais e regulatórias. Por exemplo, em 2002 o governo criou o Tesouro Direto, permitindo que clientes pessoas físicas pudessem comprar títulos públicos diretamente, por meio de uma plataforma eletrônica oferecida pelos bancos. Até então, o único caminho disponível ao investidor comum para investir em títulos públicos eram os fundos de renda fixa dos próprios bancos.

A bolsa de valores também fez sua parte. Aproveitando uma legislação de 1984[1], a Bovespa passou a estimular a formação dos clubes de investimento, caminho pelo qual vários investidores estrearam no mercado de ações naquele período.

Outro movimento foi o lançamento das primeiras home brokers, plataformas digitais de negociação de ações. Oferecidas pelas corretoras, elas possibilitaram que pessoas físicas pudessem operar no mercado de títulos de forma online, sem precisar telefonar ou se reunir com o seu gerente de conta para decidir.

Também foi um período de expansão das aberturas de mercado no Brasil. Em 2007, 59 empresas realizaram suas ofertas primárias de ações na bolsa, o maior número de IPOs da história.

Esta primeira onda se arrefeceu por conta da crise mundial de 2008, provocada pela quebra do banco norte-americano Lemann Brothers. Mas em 2009 a bolsa de recuperou, e isso abriu espaço para uma nova onda de transformação.

Segunda onda: as plataformas abertas de investimento

Em 2010 a XP já era uma corretora que atendia investidores pessoa física e operava por meio de uma ampla rede de agentes autônomos de investimento. Neste ano, os seus fundadores visitaram a Impact, conferência anual da corretora norte-americana Charles Schwab, e conheceram seu modelo de negócios. Desde os anos 1960 ela se posicionava como um “shopping financeiro”, oferecendo produtos de investimento ao varejo norte-americano[2], posicionamento que a XP incorporou.

E foi inspirada na Charles Schwab que a corretora brasileira, que mais tarde se tornou a maior do país, começou a se apresentar como uma plataforma aberta de investimentos, por meio da qual o investidor poderia acessar os produtos que o banco não lhe oferecia. Neste formato, o agente autônomo se tornou bem mais atrativo do que o gerente do banco para os investidores, sempre trazendo novidades e sinalizando oportunidades no fascinante mercado financeiro.

Ao mesmo tempo, a regulação do mercado de capitais passou a permitir o desenvolvimento de novos produtos para investidores não qualificados. O Banco Central autorizou ou simplificou a emissão de títulos como a letra de crédito imobiliário (Circular 3,614/2012) e a letra de crédito do agronegócio (Resolução 4.410/2015).

A CVM, por sua vez, permitiu a oferta de produtos antes restritos a investidores qualificados, como cotas de fundos de investimento imobiliário (ICVM 498/2011) em mercados regulamentados. Também foram autorizados produtos novos, como os fundos de índice e os BDRs.

O modelo de plataforma aberta da XP inspirou outras empresas. Instituições tradicionais como os bancos de investimento BTG Pactual e Modal começaram a trabalhar com agentes autônomos e desenvolveram suas plataformas digitais. Novas fintechs simplificaram o processo de avaliação de ativos e gestão de portfolio por meio de tecnologia. E casas de análise de investimentos voltadas ao investidor pessoa física nasceram e se tornaram gigantes, intensificando a democratização do mercado de capitais.

Isto tudo permitiu que o investidor aprendesse a experimentar novas formas de investir capital. O cenário de juros estruturais baixos no Brasil fomentou o movimento rumo à bolsa de valores, e, em julho de 2021, a B3 atinge o número recorde de 3,7 milhões de investidores pessoas físicas[3].

Terceira onda: investimentos alternativos

Nos últimos anos, começamos a vivenciar uma nova onda de transformações do mercado de capitais, com o investidor se abrindo para uma nova modalidade: os investimentos alternativos.

O cenário econômico, as mudanças regulatórias e o consequente maior interesse dos investidores por opções de investimento mais rentáveis vêm estimulando a criatividade dos agentes de mercado, o que tem acelerado a criação de novos produtos e ampliado acesso a uma modalidade que antes estava disponível apenas para uma minoria.

Historicamente, os mercados de private equity e venture capital sempre foram restritos a investidores profissionais, depois este mundo foi se abrindo mais para investidores qualificados. Somente agora que essa classe de ativos está começando a ficar mais acessível ao varejo.

Um primeiro movimento para ampliação deste acesso foi a regulamentação do crowdfunding de investimento no Brasil, por meio da Instrução 588/2017 da CVM. Ela possibilitou que plataformas eletrônicas, como a beegin.invest, possam oferecer títulos de empresas de capital fechado a investidores pessoas físicas. E outras iniciativas de expansão do mercado de alternativos estão sendo analisadas, tanto no sandbox regulatório da CVM quanto do Banco Central.

O crescimento dos investimentos em equity crowdfunding no Brasil, que atingiram R$ 84,4 milhões no ano passado em 2020, 43% acima de 2019, é um sinal deste novo momento. Na primeira onda, o investidor percebeu que poderia investir em títulos e ações. Na segunda, descobriu que o universo dos investimentos líquidos era maior do que se pensava. Agora, se deparou com um novo mundo de oportunidades, podendo acessar os ativos negociados fora das bolsas de valores.

Para explorar essas novas oportunidades, o investidor precisará de um conhecimento que só agora começa a ser compartilhado. Iniciativas como a plataforma de educação Solum.ed e este portal da beegin fazem parte deste esforço, para ajudar o investidor brasileiro a atingir um novo nível de maturidade na sua relação com o mercado de capitais.

Referências Bibliográficas

[1] PAVON, Paula. Reúna os amigos e monte um clube de investimento. Folha de São Paulo: 24 de julho de 2000. Disponível em https://www1.folha.uol.com.br/fsp/invest/in2407200014.htm Acessado em 7 de junho de 2021.

[2] FILGUEIRAS, Maria Luiza. Na Raça: como Guilherme Benchimol criou a XP e iniciou a maior revolução do mercado financeiro brasileiro. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2019.

[3] B3. Perfil pessoas físicas. Disnponível em http://www.b3.com.br/pt_br/market-data-e-indices/servicos-de-dados/market-data/consultas/mercado-a-vista/perfil-pessoas-fisicas/faixa-etaria/  Acessado em 13 de julho de 2021.

Publicado originalmente na SpaceMoney

Por Patrícia Stille

CEO da beegin, sócia cofundadora e membro do conselho do Grupo Solum. Ex sócia da XP, onde foi head da área de Fundos de Fundos (FoF) e co-responsável pela estruturação da plataforma de fundos e área de alocação

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